Esta página tem como objetivo não só informar ao público brasileiro quanto à Igreja Católica Greco-Melquita, mas também
 quanto a todas as igrejas católicas orientais. Essas igrejas são um patrimônio de todos os católicos. Gradativamente esta
 página pretende apresentar algumas delas.

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A Igreja Caldeana Católica


Pedra tumular cristã nestoriana em Frunze, Quirguistão, centro da Ásia (séculos VIII a XIII)



A consolidação da doutrina católica foi um processo lento, ocorrido durante séculos, em que não foram poucos os percalços. Praticamente desde o tempo de Cristo começaram os ensinamentos que desviavam da doutrina, ou seja, as heresias. Uma das heresias mais fortes dos primeiros tempos do Cristianismo foi oriunda dos ensinamentos do presbítero Ario, daí seu nome de Arianismo. Tal doutrina afirmava que Cristo era uma criatura perfeitíssima, a maior de todas as criaturas, mas não era Deus. O Arianismo foi condenado no Concílio de Nicéia no ano 325 mas permaneceu forte por muito tempo. Segundo o historiador Edward Gibbon, em certo momento ele chegou a ser a doutrina das multidões em Constantinopla, então capital do Império. Mas o arianismo foi teimosa e corajosamente combatido por um grupo no qual se destacou o Patriarca de Alexandria, Atanásio, que pelos seus esforços de defender a sã doutrina foi canonizado Santo Atanásio. E seus esforços foram recompensados, as conclusões do Concílio de Nicéia prevaleceram e o mistério da Incarnação foi afirmado, ou seja, Jesus era Deus, consubstancial ao Pai, como rezamos no nosso Credo.

Já que Cristo é Deus, foi se popularizando entre os fiéis chamar Maria de “Mãe de Deus”, em grego, Theotokos. Um problema surgiria a partir daí, quando um monge chamado Nestório, de Antioquia (atual Turquia) foi escolhido pelo Imperador para ser Patriarca de Constantinopla pela fama de sua eloqüência.

Esclarecemos que nos princípios da Igreja foram estabelecidos cinco patriarcados. Um patriarca é eleito por um sínodo, ou seja, uma reunião de bispos sob sua jurisdição. Jesus disse “Ide e pregai”, e os patriarcados se estabeleceram de acordo com tal ordem. Um no centro do mundo, Jerusalém, a cidade onde o Salvador morreu e ressuscitou. Ao norte, Constantinopla (hoje Istambul, Turquia); ao sul, Alexandria (Egito); ao ocidente, Roma; ao oriente, Antioquia. Cinco patriarcas com a seguinte ordem de precedência: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Com os sucessivos cismas que abalaram a Igreja os três últimos patriarcados hoje estão divididos entre vários patriarcas. Mas os dois primeiros têm sucessores reconhecidos: o Patriarca Ecumênico de Constantinopla Sua Santidade Bartolomeu I (Ortodoxo), e o Patriarca do Ocidente Sua Santidade o Papa João Paulo II. Entre a miríade de títulos que o Papa tem (Papa, Sucessor de Pedro, Bispo de Roma, Primaz da Itália, etc) se inclui o de Patriarca do Ocidente. Assim, os católicos latinos também têm um patriarca, apenas nos esquecemos disso pois ele é o mesmo Sumo Pontífice.

Nestório se tornou patriarca de Constantinopla e logo no começo mostrou-se rigoroso contra as heresias. Em poucos dias destruiu uma capela de arianos e logo depois ocupou igrejas de outros heréticos. No entanto a Nestório desagradava o título de “Mãe de Deus” dado a Maria, pois isso lembraria o panteão de deuses pagãos. E no final de 428 Nestório pronuncia o primeiro de uma série de sermões bombásticos contra o título Theotokos. Para ele, Maria seria Christotokos, Mãe de Jesus. E ele tinha um ponto, tal título de Maria não consta na Bíblia, em lugar algum! De maneira mais ampla Nestório afirmava que em Cristo havia as naturezas humana e divina agindo como uma, mas não se juntariam para compor um indivíduo. A natureza divina teria se manifestado em Cristo a partir do batismo por João Batista, quando o Espírito Santo desceu dos céus em forma de pomba. Assim Maria deu a luz ao Jesus homem, e não ao Jesus Deus.

Houve uma reação grande, em que fatores políticos importavam tanto quanto religiosos. E quem liderou a doutrina de que Maria é Mãe de Deus foi Cirilo, patriarca de Alexandria, que depois por seus esforços foi canonizado São Cirilo. E no concílio de Éfeso em 431 Nestório e sua doutrina foram condenados. Maria foi estabelecida pelo catolicismo como Mãe de Deus. O Imperador por edito de 435 ordenou que os escritos de Nestório fossem queimados e ele morreu exilado no deserto do Saara em condições miseráveis.

No entanto ele converteu multidões, principalmente no oriente cristão. Esses seus seguidores foram duramente perseguidos pelos Imperadores do Império Romano do Oriente (também conhecido como Império Bizantino). No ano 489 um grande grupo deles migrou para o vizinho Império persa, inimigo tradicional do Império Bizantino. Lá, apesar de perseguições periódicas puderam se desenvolver como Igreja independente de Constantinopla e de Roma, tendo como líder máximo o Patriarca de Seleucia-Ctesifon (atual Iraque).

A Igreja nestoriana não é oficialmente denominada assim nem seus adeptos gostam de chamá-la assim. Esse nome foi dado por seus oponentes monofisitas, que também formaram e formam um outro ramo do cristianismo. Eles se denominam “Igreja do Oriente”. Mas por comodidade continuaremos chamando-a assim.
 
 

A Igreja nestoriana fez um grande esforço de pregação no Oriente, principalmente durante a Idade Média. Havia cristãos nestorianos na China, na Mongólia, na Pérsia e na Índia. Nesta última eles fundaram uma Igreja particularmente ativa, a Igreja Siro-Malabar, hoje quase toda Católica. Mas as perseguições de Tamerlão praticamente extinguiram essa Igreja florescente naquela parte do Mundo. Manteve-se apenas no seu local de origem, correspondente grosso modo ao atual Iraque e parte do Irã, e na Índia.

A história da Igreja Caldeana Católica começa quando das primeiras tentativas de reunificação dos cristãos nestorianos ao catolicismo. Houve tentativas na época dos Patriarcas Mar Sabrisho V (1226-1257) e Mar Uyah-allah III (1281-1371) mas com poucos resultados. Em 1445 o metropolita nestoriano da ilha de Chipre declarou-se separado da Igreja do Oriente e unido a Roma. O Papa Eugênio IV declarou que quem chamasse esses católicos vindos do nestorianismo de “nestorianos” seria excomungado – eles deveriam ser chamados de “caldeanos”. A União da igreja de Chipre não durou muito, mas ficou o nome.

No ano 1450 o Patriarca da Igreja nestoriana editou um regra que o cargo de Patriarca seria restrito aos membros de sua família (como eles são celibatários, geralmente o cargo passava de tio para sobrinho). Isso gerou insatisfações. Um século depois, em 1551, quando Mar Chimun VII foi entronizado sucedendo seu tio alguns bispos se revoltaram e elegeram um Monge, João Sulaka, como Patriarca dissidente. No ano seguinte ele partiu para Roma onde fez sua profissão de fé, e em 1553 o Papa Júlio III proclamou-o Patriarca da Igreja Caldeana, com o nome de Mar Chimun VIII. Surgia a Igreja Caldeana, em comunhão com Roma. João Sulaka foi martirizado em 1555 por um Emir muçulmano a pedido do Patriarca da outra linhagem.

Nos séculos seguintes houve uma confusão muito grande, com a linhagem de Patriarcas caldeanos se extinguindo e ressurgindo algumas vezes, com Patriarcas nestorianos se convertendo ao catolicismo e vice-versa. Em 1830 o Papa Pio VIII reconheceu o metropolita João Hormez como Patriarca da Babilônia para os Caldeus, com sede em Mossul, atual Iraque, restabelecendo-se então uma linhagem de Patriarcas caldeanos que permanece até nossos dias. Observamos que a outra linhagem de patriarcas, a da Igreja nestoriana, desde 1975 não é mais hereditária.

Hoje está havendo um movimento de reaproximação entre a Antiga Igreja Assiríaca do Oriente (nome oficial da igreja nestoriana) e o catolicismo, através da Igreja Caldeana Católica. No dia 11 de novembro de 1994 Sua Santidade o Papa João Paulo II e Sua Santidade o Catholicós-Patriarca da Igreja Assiríaca do Oriente Mar Denkha IV assinaram na Basílica de São Pedro em Roma uma declaração cristológica comum, estatuindo no que as duas igrejas concordam em termos teológicos, e estabelecendo uma comissão para conciliar as diferenças restantes.

Observamos que “catholicós” é um título que o Patriarca recebe nas igrejas da mesopotâmia, persa, armênia e georgiana (pronuncia-se “Cassolicós”).

E em 29 de novembro de 1996 os Patriarcas Mar Rafael I Bidawid (dos caldeus católicos) e Mar Denkha IV (dos nestorianos), junto com seus bispos, assinaram um Decreto Sinodal Conjunto para Promover a Unidade entre as duas igrejas.

Atualização

O Patriarca Rafael Bidawid morreu em julho de 2003, quando o Iraque passava por uma situação difícil pela invasão norte-americana. Um sínodo dos 23 bispos caldeus católicos se reuniu sob muitas privações e nenhum deles conseguiu os dois terços de votos necessários à eleição. O sínodo se encerrou em 2 de setembro, sem decisão.

Pelo Direito canônico o Papa teria o direito de eleger o próximo patriarca caso o sínodo não chegasse a uma decisão. Mas Sua Santidade preferiu convocar os bispos em novo sínodo dessa vez em Roma. O novo sínodo começou em 02/12/2003 e no dia seguinte elegeu o bispo Emmanuel-Karim Delly seu novo Patriarca. Era o antigo bispo auxiliar de Bagdá. Escolheu o nome de Karim III. No mesmo dia o eleito teve uma audiência privada com o Papa João Paulo II e foi entronizado. Depois seu nome foi revelado ao público.

Os desafios políticos são grandes. Os caldeus católicos em outubro se juntaram com os assírios (nestorianos) e os siríaco-ortodoxos e formaram o grupo “caldeu-assírio”, que quer ser reconhecido na nova constituição iraquiana e quer a administração das regiões onde sua presença é maior.


Resumo:

Igreja Caldeana Católica

Chefe espiritual: Sua Beatitude Karim III Delly, Patriarca da Babilônia dos Caldeus Católicos (desde 04/12/2003)

Sede: Bagdá, Iraque

Fiéis: 500.000

 

Fontes:

 KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições, 1997. 256p. [O
 autor deste livro é o adido cultural da Embaixada Brasileira no Líbano e gentilmente colocou sua obra à disposição desta página
  para reprodução e resumo, e a ele agradecemos].

"Chaldean synod elects new patriarch". EWTN Catholic News story. http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=41906. (04 dez 2003)

"Chaldean bishops, meeting in Rome, to elect new patriarch". EWTN Catholic News story. http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=41783. (04 dez 2003)

Yuhannon. "Bishops Elect Chaldean Catholics Leader". Melkite List. http://groups.yahoo.com/group/melkite. (04 dez 2003)






 


Encontro para a unidade: o falecido Patriarca Mar Rafael I Bidawid, dos Caldeus Católicos (esquerda)
e Patriarca Mar Denkha IV da Antiga Igreja Assiríaca do Oriente (nestoriana)

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