Esta página tem como objetivo não só informar ao público brasileiro quanto à Igreja Católica Greco-Melquita, mas também quanto a todas as igrejas católicas orientais. Essas igrejas são um patrimônio de todos os católicos. Gradativamente esta página pretende apresentar algumas delas.



A Igreja Armênia Católica


São Gregório o Iluminador, o santo da Armênia



A Armênia é um país da Ásia Menor que se tornou independente com o fim da antiga União Soviética. Mas o povo armênio devido à sua história e múltiplas perseguições se encontra espalhado por todo o Oriente Médio e pelo mundo, inclusive no Brasil. O cristianismo tem uma história antiga na Armênia. Os próprios apóstolos Tadeu e Bartolomeu teriam anunciado o evangelho naquele país (então bem maior que suas fronteiras de hoje) e teriam sido ali martirizados.

A conversão do povo armênio ao cristianismo se deu em fevereiro de 301. O ano de 2001 tem sido marcado por comemorações dos 1700 anos desse fato. A história do batismo do povo armênio é uma bela história com elementos de fábula.

No final do século III o rei da Armênia se chamava Tiridate III. E havia Gregório, que tinha sido educado em Cesaréia na Capadócia (atual Turquia), então um dos principais centros do cristianismo. O rei ordenou que Gregório oferecesse sacrifícios à deusa Anahide. Este se recusou alegando que um só é criador do céu e da terra, o Pai do Senhor Jesus Cristo. O rei mandou jogá-lo num poço escuro e cheio de cobras onde ninguém antes tinha sobrevivido. Mas alimentado por uma piedosa viúva Gregório sobreviveu lá por longos anos.

O Imperador Romano Diocleciano na mesma época se apaixonou e fazia de tudo para seduzir uma bela moça chamada Hripsime. Mas essa era cristã e não correspondia a seus avanços. Para fugir do perigo ela escapou de Roma junto com um grupo de companheiras, buscando refúgio na Armênia. Mas então sua beleza chamou a atenção do rei Tiridate, que quis fazê-la sua. A moça se recusou, e enfurecido o rei mandou matá-la a ela e a suas companheiras com terríveis torturas. Como castigo pelo horrendo crime Tiridate teve o rosto transformado no rosto de um porco selvagem.

Sua Beatitude Nersés Pedro XIX, atual Patriarca de Cilícia (Sis) dos Armênios

Obedecendo a uma indicação do céu, o rei castigado retirou Gregório do poço. Ele tinha ficado lá por treze anos. Orou pelo rei que tantos crimes cometera, e o rei voltou prodigiosamente a ter o semblante humano. Diante disso Tiridate compreendeu que o Deus de Gregório era o verdadeiro e se converteu, junto com a família e o exército, e decidiu trabalhar pela conversão de todo o país. E assim o povo todo foi batizado e a Armênia se tornou o primeiro país oficialmente cristão. Junto com Gregório percorreram o país destruindo templos pagãos e construindo igrejas cristãs.

Depois de uma visão do Unigênito Filho de Deus encarnado, foi construída uma igreja no lugar dessa visão, que tomou o nome de Etchimiazin, isto é, lugar onde “o Unigênito desceu”. Os sacerdotes pagãos foram instruídos na nova religião e tornaram-se os ministros do novo culto. Gregório se retirou para vida de eremita no deserto. Posteriormente seu filho mais novo Aristakes se tornou bispo e participou do Concílio de Nicéia, que ajudou a definir o Credo que rezamos hoje em cada liturgia nas Igrejas católicas de todo o mundo.

Por seu papel na conversão do povo Gregório é conhecido como “O Iluminador”.

Uma das dificuldades do cristianismo na Armênia é que não havia um alfabeto próprio. A partir do ano 405 um sábio, Mesrob Machdots, decidiu criar um alfabeto próprio e uma liturgia própria. Este homem conhecia profundamente várias línguas e criou um alfabeto, o que possibilitou a tradução da Bíblia para o armênio, além dos livros dos padres da Igreja. Por esse trabalho foi canonizado São Mesrob.

No entanto dificuldades políticas e de comunicação fizeram com que a igreja armênia aos poucos fosse se afastando da comunhão católica. A Armênia não teve representantes nos importantes concílios de Constantinopla (381), Éfeso (431 – condenou o nestorianismo), e Calcedônia (451 – condenou o monofisismo). O Monofisismo era uma doutrina que fazia muitos adeptos na época e dizia que a natureza divina de Cristo absorvia sua natureza bhumana. Os armênios receberam as conclusões do Concílio de Calcedônia mas a tradução era ruim e imprecisa. O monofisismo entrou na igreja armênia e num sínodo (reunião de bispos) em 525 a igreja Armênia condenou o concílio de Calcedônia, separando-se assim da Comunhão. Os que aceitaram o concílio foram perseguidos e emigraram para outros países. Assim se constituiu a Igreja Apostólica Armênia, que não é católica, e que existe até hoje e abrange a maioria dos armênios em todo o mundo.

Catedral Armênia Católica em São Paulo (ver endereço)

No decorrer dos séculos houve várias tentativas de reunir a Igreja Armênia ao catolicismo, inclusive durante o Concílio de Florença em 1439, de curta duração. Mas uma união estável só aconteceria a partir de 1701, quando um monge armênio Padre Mekhtar fundou um centro missionário em Veneza (depois seus membros ganhariam o nome de “mekhtaristas”). Em 1730 foi fundada uma ordem Armênia católica (“Antoninos armênios”) por Dom Abrão Ardvizian. Esse último foi eleito primeiro patriarca dos Armênios católicos e reconhecido como tal pelo Papa Bento XIV em 1742, ano da fundação da Igreja Armênia Católica. Ao voltar não pôde mais se instalar na Armênia, e ele e seus sucessores se instalaram no Líbano, ainda hoje o centro do catolicismo armênio.

A Igreja Armênia católica passou por muitas dificuldades assim como o seu próprio povo. Em 1915 o povo armênio foi vítima de um dos maiores crimes da história, o genocídio perpetrado pelos turcos. Morreram um milhão e meio de pessoas em massacres e deportações. (A quem se interessar mais por esse aspecto da história temos uma resenha sobre o livro “Os 40 dias de Musa Dagh”, de Franz Werfel, sobre o assunto. Essa resenha pode ser lida aqui.)

Note-se que a igreja Apostólica Armênia, não católica, existe até hoje e abrange a maioria dos fiéis armênios. Mas está em franco processo de aproximação com o catolicismo. O Sumo Pontífice fez nos dias 25 a 27 de setembro de 2001 uma Viagem Apostólica a Armênia a convite de sua Santidade o Patriarca-catholicós Karekin II, da Igreja Apostólica Armênia. Fala-se muito numa possível união das duas igrejas.

Note-se que quando o Papa vem ao Brasil ele faz uma Visita Pastoral, ou seja, é o pastor visitando seu rebanho. Mas à Armênia ele fez uma viagem apostólica, ou seja, ele era um sucessor dos apóstolos convidado por outro sucessor dos apóstolos (Karekin II).

Suas santidades João Paulo II e Karekin II em setembro de 2001

Durante essa visita o Sumo Pontífice dedicou quase todo seu tempo à Igreja Apostólica Armênia, e inclusive concelebrou em sua Catedral de Etchimiazin, o lugar onde houve o prodígio. Mas o papa também teve um almoço oficial no Centro Católico de Kanaker, na capital daquele país, visitando portanto a Igreja Armênia Católica.

A Igreja Armênia Católica no Brasil está em festa, pois recebeu recentemente uma relíquia de São Gregório o Iluminador, um pedaço do osso do crânio do santo. O crânio é conservado em Nápoles, e um pedaço agora será guardado no Brasil. No dia 22 de agosto de 2001 houve a cerimônia de recebimento com a participação de Dom Vartan Borghossian, Exarca Apostólico Armênio para a América Latina, Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, e Dom Datev Karibian, Arcebispo para o Brasil da Igreja Apostólica Armênia.

Resumo:

Igreja Armênia Católica

Chefe Espiritual: Sua Beatitude Nersés Pedro XIX, Patriarca de Cilícia (Sis) dos Armênios.

Sede: Beirute – Líbano

Fiéis: 150.000

No Brasil:

Exarcado Apostólico de São Gregório de Narek para a América Latina, criado a 03.07.91 pelo Papa João Paulo II

Exarca: Dom Vartan Waldir Borghossian, Bispo da Diocese armênia de São Gregório de Narek e Exarca Apostólico Armênio da América latina, desde 1991.
 

Fontes:

   KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições,  1997. 256p. [O autor deste livro é o adido cultural da Embaixada Brasileira no Líbano e gentilmente colocou sua obra à disposição desta página para reprodução e resumo, e a ele agradecemos].

Entrevista com Dom Vartan Borghossian em 22/08/2001, Portal catolicanet (http://www.catolicanet.com.br)

Carta Apostólica de João Paulo II pelo aniversário de 1.700 anos do batismo do povo armênio.

Brasão da Igreja Católica Armênia

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