Esta página tem como objetivo não só informar ao público brasileiro quanto à Igreja Católica Greco-Melquita, mas também quanto a todas as igrejas católicas orientais. Essas igrejas em grande parte nasceram a partir de cismas e heresias. Gradativamente esta página pretende apresentar elementos históricos quanto a alguns deles.

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O Cisma Donatista


Provável aspecto de Cartago na época do Cisma

Provável aspecto de Cartago na época do Cisma


Paulo Avelino

melquita@yahoo.com.br

http://br.geocities.com/melquita


No começo do século IV o norte da África era rico. Hoje se encontram no meio do deserto ruínas maravilhosas. Quando as ruínas eram cidades havia campos de trigo em volta. O Saara era bem menor. Nessa região aconteceu uma divisão, o primeiro de uma série de conflitos entre os cristãos que duraram séculos e ocasionaram a consolidação de algumas das bases da nova religião.

 A última grande perseguição aos cristãos aconteceu sob o Imperador Diocleciano. Como é natural alguns  dos perseguidos se comportaram bravamente, outros se acovardaram. Isso gerou mágoas que estão na raiz do cisma.

  A perseguição já havia então amenizado quando morreu Mensúrio, bispo de Cartago, no ano 311 d.C. A diocese de Cartago era a segunda em grau e rendas entre todas as sedes episcopais do Ocidente, atrás apenas de Roma. Seu bispo era o primaz do norte da África.

 O povo de Cartago em assembléia escolheu um prelado por nome Ceciliano para seu bispo. Porém um grupo de sacerdotes da cidade não aceitou a decisão. Ceciliano tinha inimigos poderosos, como uma mulher chamada Lucila, muito rica, com quem Ceciliano tinha uma velha rusga por ela beijara relíquias de pessoas que não eram consideradas oficialmente mártires da Igreja pela hierarquia. Esse grupo dissidente se reuniu e acusou Ceciliano de ter entregue escritos sagrados aos pagãos durante a perseguição. Elegeram um parente de Lucila, Majorino, como bispo de Cartago.

 Quando Constantino derrotou Maxêncio em 28 de outubro de 312 e se tornou senhor da África, encontrou-a toda dividida. Muitas dioceses tinham dois bispos, cada um fiel a um dos dois grupos. Um grupo de bispos convidou Ceciliano para impor-lhe as mãos, com a intenção de não só impor-lhe as mãos como de lhe quebrar o pescoço. Ceciliano não aceitou o convite. (A imposição de mãos é a forma tradicional de sagração de um novo bispo, usada até hoje).

 A igreja da África estava por demais dividida para emitir um veredito imparcial. Assim os julgamentos aconteceram fora de lá, em Roma, em Arles, e mais três outros tribunais, todos dando ganho de causa ao grupo de Ceciliano, que foi considerado o verdadeiro grupo católico. O Imperador Constantino exilou os líderes donatistas e ordenou que as igrejas por eles ocupadas fossem entregues ao outro grupo.

 Mas o cisma continuava, resistindo aos concílios de Arles e Roma, e ao poder civil. Em parte a continuidade refletia o carisma de uma nova liderança, Donato de Casae Nigrae, chamado O Grande, que sucedera Majorino quando este faleceu. Seus escritos foram perdidos. Mas parece que sua eloqüência e força de vontade empolgavam as pessoas e impediam qualquer rendição. Até mesmo Santo Agostinho se enfureceu contra sua arrogância e a quase adoração que inspirava aos seus seguidores. Depois de sua morte as pessoas lhe pediam milagres.

 Ao ver que o tempo passava e sua política de apoio total a Ceciliano não trazia a paz ao seu Império, Constantino relaxou sua política em 321 e pediu tolerância ao partido de Ceciliano. Em certa cidade os donatistas ocuparam uma basílica. A solução do imperador foi construir outra.

 Os donatistas recusavam obediência aos outros, negando seus poderes espirituais. Excomungaram o resto da Humanidade. Declararam que a sucessão apostólica tinha sido quebrada e que todos os bispos da Europa e da Ásia eram cismáticos. A fé cristã estaria agora apenas neles mesmos.

 Quando convertiam alguém, os donatistas o rebatizavam, pois não viam validade no batismo dos outros. Até bispos, mulheres e crianças deviam fazer uma penitência pública antes de serem aceitos. Se alguém da outra facção entrasse em uma de suas igrejas eles o expulsavam e lavavam com sal o chão onde pisara. Ao se apossarem de uma igreja lavavam o chão, raspavam as paredes, queimavam o altar (geralmente de madeira), fundiam o metal dos objetos sagrados e jogavam as hóstias para os cachorros.

 O ponto máximo do radicalismo foi o surgimento dos Agonistas, ou Circunceliões, bandos de briguentos que circulavam sem rumo pelo norte da África fazendo violências contra os não-donatistas. O primeiro nome é o que eles davam a si mesmos (de Agon = luta), e o segundo era o que os seus inimigos lhe conferiram (de “circum cellas euntes”, por que sempre estavam em torno dos camponeses). Não tinham ocupação. Atacavam gritando Deo Laudes! (louvai ao Senhor). Como Cristo disse a Pedro para manter a espada na bainha, eles não usavam espadas. Preferiam porretes. Davam porretadas na vítima sem matá-la e a deixavam lá. Se morresse depois presumivelmente consideravam que não era mais com eles. Jogavam suco de limão e vinagre nos olhos dos padres. Protegiam os que tinham dívidas. Gostavam de atacar nas estradas. Quando encontravam uma carruagem punham os escravos dentro da carruagem e obrigavam os senhores a puxá-la.

 Os circunceliões freqüentemente buscavam a morte. O suicídio contava como martírio. Um circuncelião que anunciava que queria ser mártir era bem tratado pelos outros, que davam a ele muita comida, como acontece com os animais que vão para o sacrifício. Seu meio preferido era se jogar de precipícios. Era um método particularmente popular entre as mulheres. Também se jogavam na água para se afogar, e no fogo. Outras maneiras eram provocar juízes e induzi-los a condená-los à morte, e comparecer a cerimônias pagãs para serem martirizados. Presumivelmente quando tudo isso falhava pagavam um homem para matá-los. Ou capturavam alguém numa estrada e ofereciam a ele a alternativa de matá-los ou morrer.

 Essa história é relatada em duas fontes, inclusive Santo Agostinho, por isso deve ser real. Um rapaz foi capturado por um grupo de gordos circunceliões. Já explicamos a razão de sua gordura. Eles lhe deram uma espada, com uma alternativa: ou os matava, ou eles o matariam. O rapaz respondeu que temia que, quando tivesse matado alguns deles, os outros mudassem de idéia e quisessem vingar seus companheiros mortos. Exigiu que eles se amarrassem para que isso não acontecesse. Eles se amarraram. O rapaz com suas mãos deu-lhes umas pancadas de castigo, foi embora e não matou ninguém.

 Previsivelmente os próprios bispos donatistas passaram a temer os circunceliões e chamaram a repressão, que foi terrível. Durante anos eles foram venerados como mártires. Que, creio, é o que queriam.

Os donatistas chegaram a ter quatrocentos bispos e superioridade numérica em algumas regiões da África. Foram enfraquecidos por divisões internas. A seita dos Rogacianos afirmava que quando Cristo voltasse à terra só encontraria sua verdadeira religião em algumas vilas sem nome da Mauritânia Cesaréia. Só terminou com a virtual extinção do cristianismo naquele região com a invasão sarracena.

Pouco depois começou um conflito muito mais importante, a heresia ariana, nos patriarcados do hoje chamado Oriente Médio. Houve contato entre os dois grupos dissidentes mas os Donatistas não aderiram ao arianismo. Considerando-se o trabalho que cada um desses grupos deu isoladamente, pode-se especular que no que poderia ter acontecido se tivessem juntado suas forças.

 Teologicamente o cisma donatista levantou a questão de se um sacramento, no caso o batismo, depende do valor de quem o ministra. Pois os donatistas negavam a validade do batismo dado pelos outros, pois seriam indignos. O catolicismo a partir daí adotou a posição de que o sacramento independe do valor individual de quem o ministra.

 

 Santo Agostinho

Santo Agostinho combateu os Donatistas

Notas e leituras adicionais:

 GIBBON, Edward. Decline and fall of the Roman Empire. 29a reimpressão. Chicago: The Encyclopaedia Britannica, 1987. Coleção “Great Books of the Western World”. Pgs. 305-307, 766-767. 900p.

 “Donatists”. The Catholic Encyclopaedia. http://www.newadvent.org/cathen/05121a.htm. (03 dez 2003).

 “Agonistici”. The Catholic Encyclopaedia. http://www.newadvent.org/cathen/01223a.htm. (03 dez 2003).

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