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O artigo abaixo faz parte de uma série escrita para a imprensa de Fortaleza, portanto se caracteriza por seu aspecto didático.

A Igreja do Líbano é católica? - I

Paulo Avelino
melquita@yahoo.com.br
http://br.geocities.com.br/melquita

Essa pergunta é feita muitas vezes aos paroquianos da Igreja de Nossa Senhora do Líbano, na Aldeota. E antes de mais nada devo dizer que a resposta é decididamente SIM. A Paróquia Melquita de Nossa Senhora do Líbano faz parte da comunhão católica, está em comunhão com o Sumo Pontífice João Paulo II e todas as demais igrejas da comunhão católica.

Mas ela não é uma igreja latina romana. É uma igreja Melquita, que por sua vez é uma igreja Bizantina em comunhão com Roma. Daí que seus ritos e seu calendário litúrgico diferem dos do restante das igrejas católicas de nossa cidade.

O catolicismo é uno, mas unidade não quer dizer uniformidade. A Igreja católica pode ser comparada a uma confederação, que inclui não uma só igreja, mas vinte e três, das quais a igreja latina romana é apenas uma. É claro que é disparadamente a maior, abrange mais de 90% dos fiéis, mas não é a única. A Igreja melquita é outra dessas vinte e três.

Para explicar como surgiu toda essa diversidade, precisamos recorrer um pouco à história.

Comecemos pela pentarquia. Nos começos do cristianismo havia cinco Patriarcas. Cada um deles era o cabeça de um centro de expansão da nova fé, e cada um deles tinha como função expandir o cristianismo numa certa direção geográfica. Primeiro o Patriarca de Jerusalém, no Centro, onde Jesus morreu e ressuscitou. Ao norte, o Patriarca de Constantinopla. Ao sul, o Patriarca de Alexandria, no Egito. Ao Oriente, o Patriarca de Antioquia. E a Ocidente, o Patriarca de Roma. Esse último com os séculos foi ganhando um outro título, o de Papa...

É por isso que entre a miríade de títulos que o Papa tem hoje, Sucessor de Pedro, Primaz da Itália, Bispo de Roma, etc, está também o de Patriarca do Ocidente. A maior parte das ações que o Papa toma são tomadas não enquanto Papa, mas enquanto Patriarca do Ocidente. Segundo o padre norte-americano Hal Stockert, outra conseqüência que existe até hoje é na tiara, a coroa com a qual o Papa é coroado. Tiara quer dizer três coroas: a coroa do Bispo de Roma; a coroa do Patriarca do Ocidente, e a coroa do Papa. E enquanto Papa, ele pertence a todos os ritos.

Outra curiosidade: ao contrário do que muitos pensam, a catedral do Papa NÃO é a Basílica de São Pedro... A Catedral dele é a Basílica de São João de Latrão, também em Roma. É lá que fica a cátedra (= cadeira) onde se senta o Bispo de Roma, a sua igreja sede. De “cátedra” vem “catedral”. A Basílica de São Pedro é a catedral do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, quando as igrejas se reunificarem.

E cada um dos outros Patriarcas tem uma igreja ou basílica em Roma. Falando de basílicas, tem outra curiosidade. Roma tem seis basílicas (tem as duas já mencionadas, tem Santa Maria Maior – cujo teto foi decorado com o primeiro ouro trazido ou roubado das Américas – tem São Paulo Extramuros – assim chamada por que ficava do lado de fora dos muros da cidade, São Lourenço Extramuros e Santa Cruz em Jerusalém). Privilégio de Capital. O Brasil inteiro durante muito tempo só teve duas, Aparecida e Canindé. A particularidade de São Pedro, São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros é que elas têm portas santas e as outras não. As portas santas só se abrem a cada 25 anos, geralmente.

Voltando aos títulos da pentarquia, o Patriarca dos Melquitas hoje tem o seguinte título: “Sua Beatitude o Patriarca Gregório III Laham, de Antioquia e todo o Oriente, Jerusalém e Alexandria, Décimo-terceiro apóstolo e Sucessor de Pedro”. Ou seja, de Antioquia a fé deveria se expandir para todo o Oriente.

Boa parte das igrejas do catolicismo teve sua origem em cismas, divisões.

O cristianismo sempre teve uma ótima mania (ou péssima, de acordo com o ponto de vista): tudo sempre foi bem explicadinho, filosófica ou teologicamente, às vezes das duas formas. Certas questões que poderiam ser simplesmente deixadas de lado foram investigadas a fundo. Isso teve o péssimo efeito colateral de, a cada vez que uma questão era resolvida, uma turma discordar e cair fora.

A primeira briga braba (brigas houve muitas desde o começo. Estou falando de brigas para valer!) aconteceu a partir do ano 315, mais ou menos.

Um padre de Alexandria no Egito, chamado Ario, muito humilde, tanto que teria recusado a candidatura a Patriarca, lançou uma teoria. Jesus foi criado por Deus. Era uma criatura perfeitíssima, superior a todas as outras, mas ele foi criado. Não era exatamente Deus. Era semelhante, mas só semelhante.

Ora, a crença difusa mas ainda não estabelecida era que Jesus era Deus, tanto como o Deus-Pai. Ora, semelhante, igual, que diferença isso faria? Não seria mais fácil deixar isso nebuloso, para evitar brigas inúteis? Seria. Mas aí entrou “Seu explicadinho”... Tudo tem de ser explicado, por respeito ao fiel, e por não querer que o fiel se torne um fanático que crê em bobagens não provadas, teológica ou filosoficamente.

E tome briga. Uns sessenta anos de briga na sua fase mais dura, por aí. Ario foi exilado, depois voltou. Quando ia ser recebido na igreja, morreu de forma horrível. Milagre segundo alguns, veneno segundo outros. O concílio de Nicéia em 325 estabeleceu que Jesus era igual ao Pai, recusando a doutrina de Ario. Muita gente não concordou, inclusive a irmã do Imperador. E tome mais briga, o Imperador é batizado em extrema-unção por um bispo ariano. Os arianos convertiam multidões. Destaca-se a figura do teimoso Patriarca de Alexandria, Atanásio. Os adeptos da crença do “igual” perdem terreno. Atanásio é chutado da sua diocese e caçado como um cão, se refugia em cisternas e aqueles que o abrigam têm os olhos arrancados.

Os arianos quase venceram. Mas no final se estabeleceu que Jesus era consubstancial ao Pai, ou seja, feito da mesma substância, um conceito estabelecido por um filósofo pagão, Aristóteles, que Dante colocaria no Inferno, num círculo não muito ruim, na verdade, colocou-o no Limbo, mas ainda assim no Inferno.

Aí surgiria outro problema.

Ao contrário da crença popular, o cristianismo em sua essência se dá bem com o corpo. Quem via o corpo com desconfiança, como coisa do cão, era o pessoal daquelas religiões do Oriente Próximo. O cristianismo essencial vê o corpo com tanta simpatia que a gente reza no credo “na ressurreição dos mortos...” Por que na ressurreição dos mortos? Por que a gente não poderia ir ao céu só com nossas almas, e tudo estaria bem? Por que nós somos humanos, e ser humano tem corpo e espírito. Assim depois do julgamento teremos um corpo sim, um corpo diferente, mas um corpo!

Pois bem, mas muita gente achava o corpo muito sujo. Os adeptos de Mani por exemplo diziam que havia dois princípios, um bom outro mau, um de luz outro de trevas, absolutamente irreconciliáveis. O corpo era um princípio mau, e o espírito um princípio bom...

A igreja só começou a passar essa idéia de horror ao corpo de uns trezentos anos para cá, depois que o cristianismo passou por uma irritante sexualização. Ouve-se falar em “Pecado” e a gente pensa logo naquilo. Em Olinda tem uma igreja com um túmulo sobre o qual tem escrito apenas “A pecadora”. Alguém pensa nela como uma mulher orgulhosa? Não, geralmente se pensa logo naquilo. E na verdade o pior pecado segundo a teologia medieval principal era o orgulho. O pecado de Lúcifer não foi transar com nenhuma diabinha. Seu pecado foi querer ser como Deus (o pior dos orgulhos!). Ele quis derrubar Deus, e levou um terço dos anjos consigo.

Essa dessexualização (que é na verdade uma excessiva preocupação com o sexo) é tão chata que leva até a distorções na representação de Maria. Pode-se ver em pinturas da renascença ou do barroco Maria com seios, com roupas da época que mostravam suas formas de mulher, e ate amamentando. Ou seja, sendo uma mulher! Hoje Maria é mostrada toda coberta e com peito de menina, ou seja, praticamente sem seios! E Maria era uma mulher, e teve todas as reações de uma mulher, principalmente naquela época de medicina tão atrasada!

Mas enfim muita gente passou a achar “sujo, feio” que Deus ficasse nove meses dentro do corpo de uma mulher (aquela turminha era meio machista, mesmo). Achava horrendo que Deus saísse de dentro de uma mulher, por aquele lugar...

Lá pelo ano 425 um cidadão muito brabo chamado Nestório, Patriarca de Constantinopla, veio com uma idéia: havia duas pessoas em Jesus. A divina e a humana. Maria deu a luz Jesus, um homem. E aquele homem só se tornou Deus quando foi batizado por João, trinta anos depois, à margem do rio Jordão. Maria seria Mãe de Cristo, mas não Mãe de Deus.

De novo, haja brigas, debates, livros, fofocas, denúncias ao Imperador, reuniões, sínodos, vou pular os detalhes sangrentos. A resistência foi chefiada de novo pelo Patriarca de Alexandria, que então era Cirilo. Ele e Nestório se pegaram tão ferozmente que virou uma questão pessoal entre ambos. Finalmente no concílio de Éfeso em 431 se estabeleceu: Nestório estava errado. Maria era Mãe de Deus.

Perseguidos, os adeptos de Nestório se refugiaram no Império Persa, o arqui-rival dos romanos, e lá formaram a chamada Igreja Nestoriana. Esse pessoal foi se expandindo pela rota da seda e chegou até a China e a Índia, Marco Pólo encontrou vários deles por lá, assim como os portugueses depois.

No entanto alguns deles quiseram voltar ao catolicismo. E assim fizeram, mas conservando um rito especial seu, o rito caldeu, que tem uns 500.000 adeptos principalmente no atual Iraque, e é liderado pelo Patriarca da Babilônia dos Caldeus Católicos, Rafael I Bidawil. O Vice-Presidente do Iraque, Tariq Aziz, é católico desse rito.

Os nestorianos da Índia tiveram contato com os portugueses colonizadores no século XVI e voltaram ao catolicismo, mas formando o seu próprio rito, o rito Malabar, hoje com cerca de três milhões de adeptos e crescendo rapidamente. Seu líder é o Metropolita Arcebispo de Ernakulam dos Siríacos Malabares Católicos, Varkey Vithayathil, recentemente escolhido cardeal por João Paulo II.

Quanto à Igreja Nestoriana ainda fiel aos preceitos de seu inspirador Nestório, ainda existe e é chamada de Igreja Assíria, com cerca de 600.000 adeptos especialmente no Iraque e também no Irã. Seu líder é o Patriarca da Antiga Igreja do Oriente, Mar Denkha IV. Esta está fora da comunhão católica.

Às vezes pode parecer que estou falando de realidades muito etéreas e distantes... Que nada meus amigos, os adeptos de Nestório (reconciliados com o catolicismo) estão na Internet! São os caldeus on-line! (http://www.chaldeansonline.net/).

Houve outras dissensões e outras igrejas católicas surgiram, mas trataremos disso no próximo artigo.